Desmontando toda essa papagaiada de geração X, Y e Z em 3, 2, 1…

Portrait-20por MARCOS HILLER

Sempre digo que o mundo digital é muito fértil. Ele faz aflorar a cada dia novos personagens que se auto intitulam especialistas dessa arena online. E para isso, vão criando neologismos, termos bonitos, expressões super sexy, prezis, keynotes e powerpoints que brilham no escuro, uploadam vídeos super bem produzidos filmados em 4K, mega palestras com microfoninho a lá Madonna afixado na bochecha e todos os eteceteras que vc quiser. Se alguém chegar na sua frente, bater no peito e dizer que é um especialista dessa cena digital, olhe no fundo do olho dele, dê um passo à trás e desconfie. Para mim, isso ainda não existe. Afinal, estamos todos no mesmo barco em um complexo processo de aprendizagem mútua de como entender as lógicas e engrenagens desses novos espaços comunicacionais online. Nessa arena online que habitamos, devemos dar cada passo de forma minuciosa. Tudo é muito novo, difuso e hesitante.

Analisar esses novos fenômenos da arena digital, destilarmos nossa opinião e cair em argumentos simplistas é uma armadilha fácil. E vejo muitos “gurus de plantão” caírem nessa arapuca. Por isso, entendo que  devemos nos preparar, estudar, pesquisar de verdade, e ter a lupa bem ajustada para tentarmos ter algum tipo de lucidez em interpretar essa nova cena digital. Temos hoje grandes pensadores que entregam a vida no entendimento dos processos e fenômenos da cultura digital, então por que não segurar na mão desses caras e analisar esses novos fenômenos à luz deles? Cito aqui alguns deles apenas: Erick Felinto, Henry Jenkins, Gisela Castro, Beatriz Polivanov, Nestor Canclini, Manuel Castells, André Lemos, Beth Saad, Pierre Levy. Tudo gente graúda! Jogue os nomes deles no Google, YouTube, and have some fun. A dica de ouro é: muito cuidado com o que se lê! Seja muito, mas muito criterioso e não se impressione com mini-CVs gigantescos e cheio de termos bacanas. O mundo digital é um ecossistema cheio de falsos profetas, charlatões cibernéticos, produtores ininterruptos de vídeos em HD, futurologistas que fariam inveja na Mãe Dinah (RIP).

Tarde de 1998_Algema digitalDentro de toda essa euforia discursiva que o palco do mundo digital nos apresenta, a cada dia vemos novos termos sendo criados a bel-prazer no intuito de se desenvolver algum tipo de categorização para esses novos fenômenos. Geração Y, Millenials, Geração X, Z, W, Humanóides, etc, etc são algum dos termos que são criados despudoradamente e que tenho lido de uns anos pra cá. Outro dia vi um palestrante mostrar uma tabela excel com datas, anos e a qual respectiva geração você pertencia. Oi? Não é tão cartesiano assim a parada. Eu não gosto desses termos, eles são rasos. Acho que são termos muito marqueteiros e usados de forma irresponsável. E tem gente que carrega um estandarte com esses edulcorados termos e que fazem vender livros, palestras, ganham views, likes, etc. Os chamados “e-book” sobre esses temas então pupulam por nossas timelines. Aliás chamar essas coisas de ebook é rir da nossa cara, né? Outro dia, apareceu um desses em minha timeline, sagazmente amarrado com uma boa estratégia de inbound e captura de emails, e que me dei ao trabalho de baixar um deles. Para minha surpresa, era “vendido” como livro, mas quando baixei se tratava de um powerpoint safado com cerca de 30 slides, e que me ofereceram como “e-Book”. O que me preocupa e, que me deixa levemente angustiado, é que muitos alunos desavisados e muita gente pelo Brasil afora caem nessa armadilha fácil e tomam aquilo como verdade. Afinal, pra quem tem sede de conhecimento, qualquer golinho de agua serve.

facebook-surreal5Prega-se que essas novas gerações de jovens são novos seres, que são multi-tarefa, multi-isso, multi-aquilo. Que as crianças hoje em dia fazem mil coisas ao mesmo tempo, que bebezinhos com meses de vida já conseguem desbloquear o iPhone com o dedinho. Mas será que tudo isso são características peculiares dessas novas gerações? Será que é possível termos mudanças geracionais em 20 ou 30 anos apenas? Oras, se dessem um iPad na nossa mão quando éramos criancinhas, será que também não sairmos dominando o touch-screen de forma íntima? Eu creio que sim. Na nossa época nossos brinquedos eram outros. Eu tenho 37 anos e quando era criança não existia o tal iPad, nem smartphones, nem nenhuma outra engenhoca que se aproxime desses incríveis dispositivos eletrônicos, nem dos vídeo-games que temos hoje. Meus brinquedos eram apenas outros, eras pipas, piões, bola, jogos de tabuleiro etc. Eletronicamente falando, nem um reles “Pense Bem” eu tive. Mas tive um Atari e um Tele-Jogo. Yes!!! E ganhei um Colossus do meu pai aos 10 anos de idade. E esse mulekada hoje tem iPad, iPhones, Smart Watches, X-Box, uma miríade de canais de YouTube, aplicativos pedagógicos, Discovery Kids ligado o dia inteiro. Eles são muito mais estimulados do que nós fomos na nossa longingua infância e por isso, tendem a adquirir uma capacidade sensório-motora mais polida que a nossa. Simples assim.

O uso do vídeo-game deixa a criança mais inteligente? Metade dos especialistas dizem que sim, outra metade diz que não. Ele deixa a criança mais violenta? Metade fala sim, e metade fala não. Games deixam crianças mais ansiosas? Sim! Vídeo-game vicia? Com certeza! Devido a esse tamanho estímulo que essas novas gerações recebem, eles serão mais inteligentes que a gente quando chegaram aos 20 ou 30 anos? A resposta é: talvez sim, talvez não, a resposta é uma folha em branco, não sabemos. Oras! Mas o filho do meu primo estuda e ao mesmo tempo escuta música com fone de ouvido, e joga Minicraft no iPad, e assiste um vídeo do canal favorito do YouTube, tudo ao mesmo tempo de forma simultânea. Tsc! Tsc! Não, cara pálida! Ele faz uma coisa de cada vez, ninguém faz mil coisas ao mesmo tempo. Quer dizer, talvez a minha Avó Elsa tivesse sido sim multi-tarefa pois ela criou meu pai e mais 5 irmãos, e cozinhava, lavava, passada, arrumava a casa, produzia conservas e cerveja artesanal para vender na cidade. Tudo ao mesmo tempo!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *