Alunos, abram as câmeras! Para ensinar bem, precisamos vê-los!

Sou o professor Marcos Hiller, tenho 41 anos e moro na cidade de São Paulo. Leciono as disciplinas de branding, pesquisa, consumo e cultura digital em escolas de negócios de todo o Brasil. O que trago nesse texto aqui é um olhar muito pessoal, particular e independente, e não representa necessariamente o pensamento das respectivas instituições que dou aulas.

Habemus Covid-19! Pouco mais de dois meses de pandemia e, como diz um amigo, as melancias já se estabilizam cada vez mais no caminhão. Ou seja, apesar da incerteza e complexidade extrema, e não querendo exercitar nenhum tipo de futurologia, uma coisa é certa: a cada dia que passa, conseguimos ter mais visibilidade dos danos que estão vindo e que estão por vir nos mais diversos segmentos da economia e negócios. Podemos analisar, estudar e tentar interpretar  os impactos dessa pandemia em centenas de aspectos, para citar apenas alguns: na nossa relação com idosos, com a higiene do nosso corpo, com o consumo, com a moda, com nossos amigos, com o nosso carro, com o banco, com o vizinho, com nosso trabalho, com o nosso estar no mundo, e na forma que aprendemos e adquirimos conhecimento, claro!

Eu sou professor e leciono há quase 15 anos. Migrar a minha aula para ambientes online não foi tarefa hercúlea, visto que eu já dava cursos online há um bocado de tempo. Sou acostumado em dar aulas para meu laptop. Virei a chave sem grandes emoções. No entanto, nesse período de pandemia, me vejo na necessidade de tentar sempre aperfeiçoar minha aula cada vez mais e mais, no sentido de torná-la ainda mais efetiva, interessante, e talvez, sedutora para minhas turmas. Não estou dizendo aqui de devemos ser ultra-performáticos (como ficaram tradicionalmente conhecidos os professores de cursinhos pré-vestibular) mas sim fazer com que nossa aula seja entregue de uma forma mais impactante e relevante possível. Costumo dizer que aula boa não é aquela que o aluno sai com todas as respostas, mas sim aquela aula onde o aluno sai com novas e inquietantes perguntas martelando a cabeça dela. Se pensamos, se refletimos exaustivamente, há uma chance maior de mudarmos nossas ideias e percepções sobre as coisas do nosso entorno, disse isso, certa vez, Blaise Pascal, filósofo, físico, teólogo, matemático e escritor francês dos anos de 1600.

Teoricamente, nós professores somos (ou pelo menos, deveríamos ser) os grandes entendedores de como devemos ministrar uma aula. A premissa para ser um bom professor é não apenas conhecer muito de um determinado tema, mas sim como se apropriar das mais adequadas técnicas de ensino-aprendizagem de modo que o aluno compreenda e retenha de forma efetiva aquele determinado saber. Mas em muitos contextos, o aluno hoje detém um grau de conhecimento cada vez maior. Ele já vem mais pronto e com mais estofo, em função do advento de novas tecnologias e ferramentas de busca à palma da mão. Há uma certa tendência, hoje em dia, das pessoas virem mais bem informadas do que antigamente. Na minha aula, é raro mas acontece: há ocasiões de eu ser trucado por alunos que já acharam no Google um gráfico mais atual do que o que estou mostrando no slide. Se ele estiver pesquisando certo, dou a mão à palmatória. E claro, sempre com o radar mais atento pra produzir conteúdo de aula com cada vez mais capricho, esmero e atenção a mínimos detalhes.

Esse momento de pandemia é desagradável para todos, sem exceção. O medo constante diante da incerteza nos invade, não podemos sair na rua e nem nos relacionarmos como antes. Tudo isso é algo que nos deixa desconcertados. Muitos de nós estamos trancados em casa dia todo. Sem sair pra nada. Não estamos mais vivendo do que jeito que vivíamos. Somos seres que temos a sociabilidade como um dos pilares da nossa existência. As nossas relações sociais são o alicerce do nosso estar no mundo. E a aula, dentro desse contexto, é uma atividade social, é uma atividade que nasceu e permaneceu fundada na lógica do olho no olho, do dizer, no gestual de um professor, no debate acalorado em sala de aula. As coisas vão mudando e evoluindo. É óbvio que podemos aprender super bem hoje por meio de um robô ou com um assistente virtual em uma tela. Mas não é mesma coisa. Há diferenças nas duas formas de aprendizado.

A Sorbonne, um dos centros de excelência mais importante do mundo, fica hoje em edifício histórico no Quartier Latin, de Paris, e abriga desde 1200 a principal universidade de Paris e a segunda universidade mais antiga da história. As aulas da Sorbonne nasceram nas ruas da capital francesa, nas vielas, nos estabelecimentos do entorno, depois que migraram para uma sala de aula fechada. A aula tradicional é, essencialmente e por definição, uma atividade que nasceu do social, pessoal e presencial. E hoje, em função do Mundo Covid-19, nos vemos forçados a dar aulas no formato EAD, com ferramentas à distância via Zoom, Teams, ou seja lá o que for.

Vale uma ressalva aqui: claro que o buraco é mais embaixo, estamos no Brasil onde o acesso à educação de qualidade é precário e a infra-estrutura básica de internet chega em apenas 60% do país. Esse meu olhar crítico aqui se restringe muito mais a minha realidade de um professor de cursos de MBA que leciona para centros universitário de ponta e na cidade mais rica do país. Portanto, o que escrevo e recomendo aqui não se encaixa na grande parcela do universo educacional. Minha intenção com esse texto é oferecer meu olhar crítico sobre esse momento atual e oferecer caminhos possíveis.

Uma das premissas mais essenciais de uma boa aula é que todos nós nos vejamos uns aos outros. Em todas as minhas aulas, quando estávamos em sala de aula (já faz 84 anos #titanic #sic) tento sempre deixar arrumação das cadeiras em círculo. Eu sento junto na roda. Somos os mesmos (mas cada um com sua diversidade). Um professor não é melhor nem pior do que ali estão, ele é diferente. Em tempos de isolamento, eu tenho pedido ENCARECIDAMENTE que meus alunos abram a câmera na aula online. Isso é essencial: que todos se vejam. Eles não gostam de abrir a câmera, né? Em média hoje em dia cerca de 70% abrem a câmera. Claro que outros 30% não abrem por uma série de razões, algumas mães podem estar amamentando, ou alguém fazendo jantar, cuidando de um filho, etc, etc, etc. Além disso, muitos dos meus alunos ficam com câmera ligada e fechada durante o dia todo no “zoom do trampo” e a noite querem mais sigilo ainda cada um com seu canto (olhando seus Stories e memes de zapzap em paz kkkk durante a aula).

Moçada! Abram a câmera! Isso é um apelo! Fundamental trocarmos nossas expressões faciais no processo de aprendizagem. Expressões faciais dizem muito sobre nós. E a tecnologia resolve quase tudo, mas não resolve tudo. Olho no olho de verdade, só no presencial. Onlinemente falando (sim, acabei de inventar esse neologismo) se eu olhar no olha da pessoa, ela me vê na tela olhando pra baixo. Se eu quiser que ela me veja olhando no olho dela, preciso olhar pra minha câmera, daí não me vejo mais olhando no olho dela. Muito louco isso! O fato é que estamos imersos em um processo de aprendizagem mutua de como lidar com esse novo momento, novas regras, novos modos de ser e estar.

Por fim, trago aqui algumas formas de ensino-aprendizagem, ou melhor, o meu arsenal de metodologias de ensino que tenho usado nas minhas aulas online. Acho que tem funcionado. Tenho percebido boa receptividade por parte de algumas turmas. Creio que tem funcionado hoje, mas não sei por quanto tempos perdurará. Vamos lá:

– Tenho posicionado o meu laptop e minha webcam em uma prateleira e dei aula de pé (como antigamente, kkkk). Chega de ficar sentadão o tempo todo. Ficar de pé foge do habitual em tempos de Zoom Mania. Eu penso que a corporabilidade do professor é fator crítico de sucesso de uma boa aula.

– Já fazia muito isso em sala, mas estou tentando forçar mais e mais meus alunos com provocações pontuais, com questões, e perguntinhas ainda mais trick, ainda mais elaboradas e, etc

– Caprichando ainda mais nos textos de leitura pra debate em sala. Textos sempre com o que há de mais vanguarda nos conceitos que trabalhamos, cada vez mais novos, recentes, tente alguns autores gringos de ponta, etc. Fugir do habitual: esse é o lema. Aqueles textos exageradamente enormes e prolixos ninguém mais aguenta (“Estou em casa trancado o dia todo, caceta! Me mande um texto gostos e menos árido vai, pelamordedeus! Já estou lutando com minha quarentena, não quero lutar contra um texto!)… Acho que o aluno pensa assim. Vamos aliviar!

– Mandando nos grupos de zapzap da turma links de podcasts foda (tem muita coisa bem bacana hoje dia disponível), episódios de seriado Abstract do Netflix. Para assistir e debatermos nos primeiros 15 minutos da aula. Eles amam. Lição de casa diferentex, bacana e moderninha vai.

– oferecendo conteúdo extra e relevante 👉🏼 “Turma! cheguem meia hora antes amanhã pra quem quiser falar sobre “como se preparar pra iniciar uma carreira acadêmica” ou “quero fazer mestrado, por onde comeco?” ….. pois isso força eles a desenvolverem um plano b, c, d, etc. sobretudo em momentos como esse que se viram diante da importância fundamental de sempre ter contingências de carreira…

Eles têm amado! Fica dica!

Daqui à algumas semanas quero fazer um novo texto desse com novas técnicas de ensino-aprendizagem em tempos de confinamento e aula online. Caso você seja professor e está lendo esse texto, me mande um email com técnicas inovadoras que você usou e funcionou. Caso você seja aluno, importante e fundamental seu feedback também. Nós estamos no caminho certo?

 

Prof. Marcos Hiller

marcos@truestories.com.br

marcoshiller.com.br/biografia/

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