CRISE: a desculpa perfeita para alguns incompetentes

Portrait-23por Marcos Hiller

Corram para as colinas! Se a gente liga televisão nos principais telejornais hoje em dia, nem saímos de casa. O medo nos invade! Afinal, todos bradam: nós estamos em crise!!! Criseeeee!!! O dólar bateu a cotação recorde. O chamado “investment grade” do Brasil despencou segundo a agência Standard & Poors. Temos uma crise econômica, moral e política no governo brasileiro.

Mas o ponto central de tudo isso é que devemos ter inteligência, serenidade e sensatez para lermos com nitidez o que está realmente acontecendo, pois tudo é claramente midiatizado e espetacularizado pela chamada grande mídia. Afinal, tudo isso vende jornal, dá audiência e gera bom tráfego para os principais portais. E não tem como negar. Claro que temos sim uma crise econômica hoje em curso. Muito mais que uma super crise econômica, temos uma espécie de crise de confiança. E a crise não é só aqui. A crise é mundial. Temos desemprego de 7% no Brasil e na Espanha é mais que o triplo: 22%. Os números e indicadores econômicos mostram claramente que as placas tectônicas de nosso país sofrem algum tipo de descompasso. Mas que crise é essa? Qual a gravidade do que está acontecendo? O que tudo isso impacta nossas vidas, nossas relações, nossos negócios? São questões importantes e que exigem de nós reflexões essenciais.

Vamos lá! Deixe-me tentar algum possível caminho. Pra começar, crise de verdade mesmo foi a de 2008, onde o mundo todo passou sim pela maior crise econômica de todos os tempos, desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929. E qual o verdadeiro tamanho e a verdadeira gravidade dessa crise que o Brasil enfrenta hoje? É muito complexo e difícil analisar com lucidez o que acontece hoje no Brasil. Se formos escutar os economistas dos grandes veículos, melhor nem sair de casa, afinal são os chamados comentaristas que só olham o copo meio vazio e isso ajuda a vender palestra de 50 mil reais. Olhar a metade cheia do copo nunca jamais. Isso não vende. Tentar ler a crise que passamos hoje, sair dando nossas impressões e cairmos em argumentos simplistas é uma armadilha muito fácil. E vejo, pelo menos nas minhas timelines, muita gente caindo nessa arapuca. Pessoas que nunca assistiram uma aula de economia na vida saem despejando as mais desvairadas certezas nas nossas redes anti-sociais, como bem escreveu o Juca Kfouri outro dia. E o pior é que ganham dezenas de likes. Eu passo o dedo vazado.

Que crise é essa que passamos? Oras! Ao mesmo tempo que vemos grandes montadoras demitindo centenas de pessoas, vi outro dia que a Honda está com fila de espera de 4 meses para o novo HRV. Ao mesmo tempo que vendas do comércio caem, parece que o Magazine Luiza decidiu não entrar na crise esse ano e a empresa de Luiza Trajano vai na contramão dos índices de vendas de outras potências do varejo brasileiro, que têm evidenciado enormes recuos desde os primeiros meses de 2015. Eu mesmo estava outro dia como uma conhecida minha que trabalha numa grande provedora de telefonia e banda larga. Ela me relatou que nunca venderam tanto como esse começo de 2016. Não estão dando conta de tantas vendas. Estão tirando dinheiro de mídia. Como assim fazer isso na crise??? Temos uma crise catastrófica hoje no Brasil, mas os principais bancos anunciaram lucro recorde no primeiro trimestre desse ano. Ué! Como assim? Fica claro que a tal crise atinge apenas alguns setores da economia. O midiático Jorge Paulo Lemann é o homem mais rico do Brasil pelo terceiro ano consecutivo e também o que mais ganhou dinheiro no último ano. De acordo com a “Forbes Brasil”, seu patrimônio passou de R$ 49 bilhões, no ano passado, para R$ 83 bilhões, em 2015, e isso equivale a um ganho de R$ 92 milhões por dia. A alta do dólar prejudica alguns setores, como o turismo por exemplo, mas favoreceu o empresário, pois grande parte de seus investimentos está fora do país. Que crise é essa? Nesse ano de 2015 o aeroporto de Guarulhos em São Paulo bateu recorde de passageiros. Amigos que foram pra Miami no fim de ano me disseram que tinha brasileiro em tudo que é canto lá. Pra mim, isso é um indicador claro que nossa economia pode estar ruim sob alguns aspectos mas está indo super bem sob vários outros setores. O norte-americano Bill Clinton esteve no Brasil meses atrás e disse isso.

Podemos decidir não entrar nessa tal crise? Eu acredito que sim. O meu escritório de consultoria, por exemplo, tem fechado projetos bastante interessantes esse ano e estamos em conversas muito boas com outros grandes potenciais clientes. Projetos de posicionamento e reposicionamento de marcas, programas de educação executiva em empresas, investigações de pesquisa em curso, enfim, muita coisa consistente acontecendo. Alguns amigos meus consultores relatam a mesma coisa. Está sendo um bom ano. Eu decidi não entrar na crise. Essas empresas que mais choram são as que menos investiram em inovação e capacitação de equipes. Elas querem continuam fazendo a mesma coisa e esperam por resultados diferentes. Como assim, cara pálida? Ao mesmo tempo que vejo um mimimi danado nas minhas timelines e em conversas com amigos, alunos, parceiros, fornecedores, eu estou indo pra cima. Prospectando, chamando reuniões, propondo ideias e fechando projetos de consultoria.

O que não gosto, e que vejo de uma forma recorrente em momentos turbulentos como esse, são pessoas usarem o discurso, levemente hipócrita, do “nossas vendas caíram, culpa da crise”, “nossa empresa faliu por causa da crise”, “vamos demitir e é tudo culpa do governo”. Evidencio de forma frequente esse discurso, meio muleta, da crise como justificativa de ineficiência e de graves falhas de gestão. Oras, cara pálida! Pra começar, a crise não nasce de uma hora pra outra, ela não brota do solo de forma repentina, ela dá sinais. Cabem às empresas, sobretudo os empreendedores, captarem esses indícios, apertarem o cinto e se prepararem para possíveis turbulências. Meses atrás, li a notícia de que uma grande e tradicional empresa varejista do ramo de calçados e acessórios da cidade de São Paulo está fechando algumas de suas lojas por conta da queda do consumo. Eu mesmo era cliente dessa rede de lojas há anos e confesso que nunca vi eles fazerem uma inovação sequer. Sempre a mesma coisa, a mesma loja, os mesmos sapatos, as mesmas vendedoras mal humoradas, o mesmíssimo modelo de negócio, pelo menos aos meus olhos. E quer sobreviver assim ad eternum? Já dizia minha a prima da vizinha da minha vó: “camarão que dorme a onda leva”. Ora bolas! Essas empresas que adotam esse discurso ao fecharem lojas, por um acaso, inovaram em quê nos últimos anos? Catso! Essas empresas que hoje lamentam investiram em capacitação de suas equipes nos últimos tempos? Não? Então pare com a choradeira agora. Engole o choro! Repito: insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferente, disse outro dia um cientista chamado Albert Einstein.

Primeiro que a economia é cíclica. E essa tal crise não é só nossa. Ela é mundial. China está com PIB despencando. Na Europa, só a Alemanda nada de braçada e os demais países todos em turbulência. Depois da tempestade, as nuvens costumam ir embora e vem um novo dia de sol. E me arrisco a dizer que alguns desses que mais choram e reclamam dessa crise hoje, talvez tenham sido os que mais ganharam dinheiro no Brasil nos últimos 5 anos. Eu estou indo pra cima e decidi não entrar na crise. Será que momentos como esse não são pertinentes para tirarmos a cabeça pra fora d´água e pensarmos fora da caixa? Vamos usar esse momento e olhar pra dentro de casa. Qual nossa essência de marca? Nosso posicionamento de marca é relevante e está tocando a vida das pessoas? São perguntas essenciais e muito pertinentes para se fazer em momentos como esse, não? Certa vez, um publicitário baiano disse que “enquanto uns choram, eu vendo lenços”. Estou vendendo lenços. E com a faca nos dentes.

Beijo, me liga!

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