Facebook e as narrativas que inventamos

wpppor Diangela Menegazzi, colunista desse portal

 

Era comum a professora solicitar, como tarefa de casa, que fizéssemos um texto sobre o fim de semana. Em todos eles, eu ia para a casa de meus avós, o paraíso a curta distância. Eram dias memoráveis. Comportávamo-nos como se estivéssemos nos episódios de MacGyver, em versão infantil.

Aquelas aventuras faziam parte dos meus relatos nos textos produzidos a pedido da professora. Mas eles eram praticamente incompreensíveis aos meus colegas. Grande parte da turma não tinha avós que moravam no interior do interior. Portanto, eles não compartilhavam dessas histórias.

Isso me incomodava de duas maneiras. Uma era o fato de que quase ninguém entendia o que eu falava, então não fazia sentido compartilhar. A outra era a impressão – muito comum ainda aos adultos – de que a grama do vizinho era mais verde, aliás, a grama do clube que todos frequentavam era mais verde do que a da casa dos meus avós.

Então, a listinha de coisas que meus colegas tinham feito sempre parecia mais interessante do que a minha. As deles estavam recheadas de dias ensolarados no clube, idas a lanchonetes, passeios de patins e tantas outras coisas que eu raramente fazia.

Numa dessas tarefas resolvi inventar uma narrativa. Foi a minha vez de ir comer pizza na lanchonete, tomar baldes de sorvete e ainda ir ao clube com amiguinhos diferentes. Já na escola, li para a turma inteira o relato do meu fim de semana mentiroso e saí com pompas de sucesso. Não me recordo de ter feito isso novamente. Mas, naquele dia, não me senti uma excluída diante do relato das outras crianças.

Lembro sempre dessa história toda vez que rolo a timeline do Facebook. Quantas narrativas inventadas e outras tantas mais coloridas e ensolaradas do que realmente são na realidade. Quantas delas contêm mentiras latentes, porém, nem por isso condenáveis, uma vez que todos nós criamos uma projeção do que gostaríamos de ser. Fazemos uma mistura literária das nossas vivências e as expomos a outras pessoas.

Em tempo de conectividade, é natural que expressemos isso pelas ferramentas que temos, como as redes sociais digitais. Queremos ter o domínio do que nos é externo. Mas não se enganem, fazíamos isso antes mesmo do Facebook existir: pela fotografia, por exemplo. “A pose é uma espécie de vingança do referente: se for inevitável que a câmera roube alguma coisa de nós, que ela roube então uma ficção”, disse o professor Juremir Machado da Silva, no texto Depois do Espetáculo.

Sim, todos são felizes, interessantes, descolados e bonitos. São narrativas, muitas vezes narcisistas e superficiais, mas que agradam os autores. Talvez isso apenas reflita os valores que a própria sociedade cultua. Então, nada mais óbvio que eles sejam externalizados por indivíduos que dela fazem parte. Talvez todas as coisas que inventamos nesses perfis esperem por alguma aprovação, como a narrativa dominante de que a ida ao clube ou outros programas mais descolados fossem melhores do que aquelas tardes lúdicas na casa dos meus avós.

Penso ser importante não esquecermos dessa necessidade humana de projetar, inventar e, assim, narrar fatos. Hoje, mais do que nunca, devido ao bombardeio de informações a que estamos expostos, é preciso ter cautela. Os fatos narrados e compartilhados, sempre com muita pressa, muitas vezes não são críveis.

Imprescindível é saber filtrar e ter clareza de que o que os outros nos contam pode não ser verdade, desde a vida via Facebook a fatos vestidos de notícias que nos chegam por todos os meios. Como bem diz a frase publicada no falecido Pasquim, e comumente atribuída a Millôr: “Se você não está em dúvida é porque foi mal informado”.

Diangela Menegazzi    diangelam@gmail.com

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