Me arranquem um rim, mas não tirem o meu celular!

Eu não largo meu celular o dia inteiro. Ai dele se sair de perto de mim. Parece que falta algo de mim quando não estou perto dele. Me sinto meio incompleto. Afinal eu relaciono mais com meu celular hoje do que com qualquer pessoa nesse mundo. Por que que eu use meu celular pra me relacionar com gente, é com ele que mais lido, toco, interajo, cuido, carrego. E limpo a tela dele o dia todo, passo na calça mesmo. Limpo a lente da câmera agora também, da frente e de trás. Tenho que cuidar muito bem dele, afinal a minha vida passa pelo meu smartphone. É relevante demais tudo que surge pra mim nessa telinha de alta definição. E o meu celular, mais do que nunca, virou meu portal pra acessar a vida dos outros. Nos meus Stories, eu consumo a vida dos outros, a ioga da moça do trampo, o pão do amigo, o #tbt de 2003. Sim, as pessoas são incrivelmente previsíveis e tendem a ser comportar como manada na quarentena.

Na vida real, eu não consigo subir em um caixote numa praça pública e ficar gritando as coisas que penso sobre política, quarentena, Bolsonaro, pandemia, feminismo etc. Sobretudo em tempos de confinamento. Mas, no digital, claro que isso é possível, e ainda consigo escrever o que quiser, falar, gritar, com filtro, sem filtro, mexo em cores, saturação, edito, corrijo, mexo, tiro, ponho, arrumo, ajeito, bem melhor que liquid paper que eu usava quando eu errava à caneta. Hoje eu corrijo e nem preciso mais ficar assoprando depois. Aliás, praticamente nem escrevemos mais tanto hoje em dia, nem a caneta, muito menos a lápis. Eu só digito, o dia todo, e com uma extrema destreza na ponta de meus dedos. Digitar, teclar, teclar, teclar, cada vez mais rápido. Sem parar. O dia todo.

E minha memória, então? Não preciso recorrer a ela o tempo todo como antigamente. O Facebook me lembra de tudo, dos aniversários, das minhas tarefas. Até sugestões prontas de mensagem de aniversário eles me trazem. Não preciso perder meu precioso tempo mais pensando em algo criativo, afinal são cerca de uns 300 parabéns que devemos desejar por ano, né? É muita coisa. Haja criatividade! Ligar para dar parabéns? Hahahah, custa caro, leva tempo e faz com que tenhamos que improvisar assuntos com pessoas que não falamos há meses. Que preguiça! Te amo, Facebook! Quando recorremos menos e acionamos menor alguma coisa, o que acontece com essa determinada coisa com o tempo? Ela atrofia. Exato! O que acontecerá com nossa memória daqui 100 anos? A resposta é uma folha em branco. Mas há que diga que ela estará super atrofiada e cada vez menos acurada. Será que essa atrofia chegará a um ponto que nem lembramos mais o que jantamos na noite anterior? Talvez.

E as Lives no Insta? Aquilo é demais! Uma estatueta do Oscar pra quem inventou isso! Assistir Lives virou a nova novela das oito. Eu não sou artista. Sou um José Ruela na vida, mas ali ganho meu minuto de fama. As pessoas me assistem ao vivo e a cores. É demais! Eu me sinto popular, pois escrevo, digo e falo as mais desvairadas certezas sobre qualquer coisa e ainda recebo likes, coraçõeszinhos, as pessoas endossam as minhas bobagens. E quando estou entediado? Meus problemas acabaram. Fico ali passando o dedo na tela na timeline do Insta, do Linkedin, do Facebook, e assisto tudo sobre todos. As opiniões, as brigas, as polêmicas, a vida dos outros. Coisas ruins não precisam ser mostradas, nem aqui na vida real, muito menos ali numa tela de celular. Parece que a vida é mais daora na tela do celular, não?

E as minhas figurinhas do whatssapp? Desculpa, ninguém tem uma curadoria e uma coleção de figus mais legais que as minhas. Tenho mais de 400 salvas aqui. GIFs e emojis são ótimos, mas nunca tive à mão algo tão preciso para expressar meu sentimento em relação às coisas. As figurinhas vieram pra ficar. Elas são maravilhosas, contemporâneas, pictóricas, engraçadas, eu amo! O que seria do confinamento sem minhas figurinhas e sem meu celular? Nossa! Nem me fala. Eu já teria enlouquecido.

Pegando emprestado um termo da Biologia, seria uma relação simbiótica com meu celular, onde ambos se beneficiam? Ele me entretém e eu dou de volta pra ele energia elétrica e essa valiosa narrativa do meu cotidiano e das pessoas que penso. Na verdade, acho que seria na verdade um parasitismo né? Ele extrai muito mais coisas valiosas da gente do que nós deles. A gente entrega de bandeja pro Facebook, Insta, Zapzap, Google, etc nossos gostos, preferências, desejos, sensações, opiniões, etc e tal. E todos esses espaços online vendem essas informações nossas para que as marcas, por sua vez, tentem vender ainda mais coisas pra gente. E assim caminha a humanidade. Aliás! Nossa!!! Que texto longo! Deixe-me voltar pros meus Stories vai! Beijo, tchau!

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