Quando a tal CRISE vira a sua melhor desculpa

Portrait-26por Marcos Hiller

Corram para as colinas! Se você liga televisão nos principais telejornais hoje em dia, a gente nem sai de casa, fica com medo. Nós estamos em crise!!! Criseeeee!!! O dólar bateu a cotação recorde. O chamado “investment grade” do Brasil despencou segundo a agência Standard & Poors. Temos uma crise econômica, moral e política no governo brasileiro. E tudo isso claramente midiatizado e espetacularizado pelos grandes veículos. Afinal, tudo isso vende jornal, dá audiência e gera bom tráfego para os principais portais. E não tem como negar. Claro que temos sim uma crise econômica hoje em curso. Muito mais que uma crise econômica, temos uma crise de confiança. Os números e indicadores econômicos mostram claramente que as placas tectônicas de nosso país sofrem algum tipo de descompasso. Mas que crise é essa? Qual a gravidade do que está acontecendo? O que tudo isso impacta nossas vidas, nossas relações, nossos negócios? São questões importantes e que exigem de nós reflexões essenciais.

Vamos lá! Deixe-me tentar algum possível caminho. Pra começar, crise de verdade pra valer foi a de 2008, onde o mundo todo passou sim pela maior crise econômica de todos os tempos, desde a quebra da bolsa de Nova York em 1929. E qual o verdadeiro tamanho e a verdadeira gravidade dessa crise que o Brasil enfrenta hoje? É muito complexo e difícil analisar com clareza, lucidez e sensatez o que acontece hoje no Brasil. Tentar ler a crise que passamos hoje, sair dando nossas impressões e cairmos em argumentos simplistas é uma armadilha muito fácil. E vejo, pelo menos nas minhas timelines, muita gente caindo nessa arapuca. Pessoas que nunca assistiram uma aula de economia na vida saem destilando as mais desvairadas certezas nas nossas redes anti-sociais, como bem escreveu o Juca Kfouri outro dia. E o pior que vejo até edulcorados economistas e com ternos bem cortados também lendo a crise e sempre o olhando o copo meio vazio, sempre. Afinal, esse é discurso mais mainstream e que faz vender palestras. Enfim, aqui vai uma dica clichê mas muito importante em tempos como esse: muito, mas muito cuidado com você lê e escuta.

Que crise é essa que passamos? Oras! Ao mesmo tempo que vemos grandes montadoras demitindo centenas de pessoas, vi outro dia que a Honda está com fila de espera de 4 meses para o novo HRV. Ao mesmo tempo que vendas do comércio caem, parece que o Magazine Luiza decidiu não entrar na crise esse ano e a empresa de Luiza Trajano vai na contramão dos índices de vendas de outras potências do varejo brasileiro, que têm evidenciado enormes recuos desde os primeiros meses de 2015. Poucos meses atrás, em evento em Pernambuco, a presidente do grupo, Trajano, disse que as expectativas de crescimento e lucro se mantêm nesse ano, ainda que o cenário econômico não seja dos mais favoráveis para os comerciantes Entre as inúmeras estratégias para movimentar a companhia, ela tem apostado em investimentos e patrocínio do futebol, e em ações promocionais muito agressivas, que vão desde a facilidade de financiamento de mercadorias até sorteios de condomínios residenciais.

Temos uma super crise hoje no Brasil, mas os principais bancos anunciaram lucro recorde no primeiro trimestre desse ano. Como assim? Fica claro que a crise atinge apenas alguns setores da economia. O midiático Jorge Paulo Lemann é o homem mais rico do Brasil pelo terceiro ano consecutivo e também o que mais ganhou dinheiro no último ano. De acordo com a “Forbes Brasil”, seu patrimônio passou de R$ 49 bilhões, no ano passado, para R$ 83 bilhões, em 2015, e isso equivale a um ganho de R$ 92 milhões por dia. A alta do dólar prejudica alguns setores, como o turismo por exemplo, mas favoreceu o empresário, pois grande parte de seus investimentos está fora do país. Que crise é essa? Nesse ano de 2015 o aeroporto de Guarulhos em São Paulo bateu recorde de passageiros. Pra mim, isso é um indicador claro que nossa economia pode estar ruim sob alguns aspectos mas está indo super bem sob vários outros setores. O norte-americano Bill Clinton esteve no Brasil semanas atrás e disse isso.

Podemos decidir não entrar na crise? Eu acredito que sim. O meu escritório de consultoria, por exemplo, tem fechado projetos bastante interessantes esse ano e estamos em conversas muito boas com outros grandes potenciais clientes. Projetos de posicionamento e reposicionamento de marcas, programas de educação executiva em empresas, investigações de pesquisa em curso, enfim, muita coisa consistente acontecendo. Alguns amigos meus consultores relatam a mesma coisa. Está sendo um bom ano. Eu decidi não entrar na crise. Ao mesmo tempo que vejo um mimimi danado nas minhas timelines e em conversas com amigos, alunos, parceiros, fornecedores, eu estou metendo a faca nos dentes e indo pra cima. Prospectando, chamando reuniões, propondo ideias e fechando projetos de consultoria.

O que não gosto, e que vejo de uma forma recorrente em momentos turbulentos como esse, são pessoas usarem o discurso, levemente hipócrita, do “nossas vendas caíram, culpa da crise”, “nossa empresa faliu por causa da crise”, “vamos demitir e é tudo culpa do governo”. Evidencio de forma frequente esse discurso, meio muleta, da crise como justificativa de ineficiência e de graves falhas de gestão. Oras, cara pálida! Pra começar, a crise não nasce de uma hora pra outra, ela não brota do solo de forma repentina, ela dá sinais. Cabem às empresas, sobretudo os empreendedores, captarem esses indícios, apertarem o cinto e se prepararem para a turbulências. Meses atrás, li a notícia de que uma grande e tradicional empresa varejista do ramo de calçados e acessórios da cidade de São Paulo está fechando algumas de suas lojas por conta da queda do consumo. Eu mesmo era cliente dessa rede de lojas há anos e confesso que nunca vi eles fazerem uma inovação sequer. Sempre a mesma coisa, a mesma loja, os mesmos sapatos, o mesmíssimo modelo de negócio, pelo menos aos meus olhos. E quer sobreviver assim ad eternum? Já dizia minha vó: “camarão que dorme a onda leva”. Ora bolas! Essas empresas que adotam esse discurso ao fecharem lojas, por um acaso, inovaram em quê nos últimos anos? Essas empresas que hoje lamentam investiram em capacitação de suas equipes nos últimos tempos? Não? Então pare com a choradeira agora. Engole o choro! Insanidade é continuar fazendo sempre a mesma coisa e esperar resultados diferente, disse outro dia um cientista chamado Albert Einstein.

A economia é cíclica. Depois da tempestade, as nuvens costumam ir embora e vem um novo dia de sol. E me arrisco a dizer que alguns desses que mais choram e reclamam dessa crise hoje, talvez tenham sido os que mais ganharam dinheiro no Brasil nos últimos 5 anos. Eu estou indo pra cima e decidi não entrar na crise. Será que momentos como esse não são pertinentes para tirarmos a cabeça pra fora d´água e pensarmos fora da caixa? Vamos usar essa turbulência e olhar pra dentro de casa. Qual nossa essência de marca? Nosso posicionamento de marca é relevante e está tocando a vida das pessoas? São perguntas essenciais e muito pertinentes para se fazer em momentos como esse, não? Certa vez, um publicitário baiano disse que “enquanto uns choram, eu vendo lenços”. Estou vendendo lenços.

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