Sai já do Facebook e VAI VIVER!

por Marcos Hiller, editor desse site

Demorei para aceitar que estamos em meio de uma revolução digital. Até uns meses atrás eu achava que não tinha nada de revolução em curso, que passávamos por meras transformações digitais, que nem metade do Brasil ainda usava internet e que eram que pessoas que estavam vivPortrait-8as, passavam bem, respiravam, tomavam chope, enfim, viviam perfeitamente sem internet. Mas a partir de coisas que eu ía lendo, pesquisando, debatendo e, fundamentalmente, por conta de uma fala do prof. Massimo di Felice (ECA-USP) rebatendo uma ultra-preconceituosa fala de Umberto Eco que havia dito que as “redes sociais fizeram nascer uma legião de imbecis”, eu definitivamente mudei de ideia. Afinal, como bem disse Chico Anysio uma vez, parafraseando Pascal: “Não me envergonho de mudar de opinião, porque não me envergonho de pensar”.

O fato é que não precisamos de muita reflexão para evidenciarmos que vivemos sim uma enorme revolução digital. Facebook hoje já se conecta com mais de 1,5 bilhão de pessoas e esse número deve crescer de forma vertiginosa ao longo dos próximos anos e décadas. Sim, isso mesmo, uma lógica algorítmica deve reger nossos pensamentos, nossas opiniões, e editar o nosso olhar sobre muitas coisas do mundo ao nosso redor. Isso me deixa assustado.

Não conseguimos mais imaginar a nossa vida sem conexão. E não devemos culpar as redes sociais, o Facebook, o Mark Zuckerberg. A culpa é nossa. Olha o que nós fizemos com nós mesmos? Como é que caímos nessa arapuca? Por mais que esses espaços online sejam super interessantes, magnéticos e sedutores, como é que deixamos chegar nesse nível patológico de uso de redes sociais? Olhamos nosso celular todo dia, toda hora, antes de dormir, logo depois de acordar, durante o jantar com nossa mulher. Muitos alunos meus ficam a aula inteira sem prestar atenção 1 minuto sequer no que eu falo. Eles simplesmente ficam a aula inteira arrastando o dedo em telas sensíveis ao toque. Parece que o celular, a internet wi-fi e a conexão são coisas tão importante como o ar que respiramos. A tecnologia nos conforta, nos faz companhia, nos informa, nos alimenta, nos preenche de alguma forma. Viver é algo muito complexo e difícil, e a tecnologia, os sites de redes sociais, os aplicativos, as web-celebridades nos ensinam a viver, nos mostram como podemos organizar melhor nossas vidas. Em um mundo que vivemos hoje cheio de interrogações do que pode, do que não pode, do que devemos ou do que não devemos fazer, a internet nos cai como uma luva e lógicas algorítmicas do Google, por exemplo, nos ensinam a tirar mancha de roupa, a fazer o stake tartar igual do melhor restaurante, a como temperar o guacamole de forma mais saborosa, nos permite explorar galáxias, conhecer pessoas, aprender línguas, ou sejas, as redes digitais nos permitem tudo. Se isso não for uma revolução, o que é então?

Eu estou adiando, adiando e adiando um chamado “detox digital”, simplesmente pelo fato de não conseguir. Apenar por isso. Mas eu queria me desconectar. Juro que queria. Mas não consigo. Tenho lido muito sobre isso. Há quem defenda que esse processo de desconexão ou desintoxicação online deva ser feito de forma gradual e sempre avisando os amigos mais próximos que você está bem.  O que a onipresença desses sites de redes sociais estão fazendo conosco, com nossos afetos, com nossas relações? São perguntas para mim, ainda sem respostas definitivas. É impressionante como as que as flechinhas de mensagem lida, entregue, não lida, etc. catalisa uma certa em ansiedade em nós. Precisamos nos controlar. Mas é claro que essas tecnologias nos trazem benefícios também. Mas qual a medida certa de como lidar com esses novos dispositivos de conexão online? Como trafegar do jeito certo nessa nova arena digital? Estou em busca de respostas razoáveis.

Vivemos em um mundo onde falamos mais com grupos de whatssapp do que com pessoas que amamos. Estamos rodeados por timelines de sites de redes sociais que pautam os temas importantes de nossas vidas. Nesses difusos espaços online, podemos deixar a mostra de uma forma muito específica, e por meio de apenas um clique, coisas que jogam a nosso favor, elementos textuais e imagéticos que contribuem para as nossas disputais simbólicas e ideológicas. O Facebook entrega uma sensação de pseudo-protagonismo a pessoas que pensam de forma coadjuvante. Vemos demais usuários e até mesmo pessoas que temos um certo apreço compartilhando vídeos de Bolsonaros e Danilos Gentilis da vida. Como assim, cara pálida? A blindagem de um teclado, a sensação do apertar o SEND e sair correndo, uma espécie de anteparo que temos atrás de uma tela, são coisas que nos confortam e nos protegem de alguma forma. As redes sociais permitem que mostremos um eu moldado, embalado, cirurgicamente talhado. E a tacanhice das pessoas, os pensamentos delirantes, retrógrados e preconceituosos, ao invés de serem cada vez mais mitigados pela nossa sociedade, vêm com força total no digital, com mais tinta ainda.

Não nos cabe oferecer simples respostas para essas perguntas e dilemas que nos inquietam. Devemos analisar e entender essas estratégias das pessoas no online com o foco bem ajustado, conferindo-lhe o devido tamanho, sem euforia, porém com serenidade, rigor e sensatez. Mais importante ainda, nos interessa analisar tudo isso sempre tentando entender o mais claramente possível o contexto sociocultural de cada usuário do Facebook; de cada ator-social que habita esse palco chamado redes sociais digitais. Até que ponto poderia se afirmar que as interações em aplicativos como Facebook, Instagram e Whatssapp intensificariam um espécie de autismo e desconexão social nas pessoas? Essas são questões candentes, inquietações que levaram pensadores como Sherry Turkle (psicóloga do MIT) a considerar que estamos “alone together” nas redes sociais digitais. Para revitalizar nossos vínculos afetivos interpessoais, a autora propõe um regime de desintoxicação por meio de abstinência digital. Embora considere um tanto radical a perspectiva adotada por Turkle, a julgar pelos resultados de minhas recentes pesquisas, entendo que os efeitos de longo prazo de nossas interações mediadas por computador necessitem ainda de muito estudo.

Eu até tento me desconectar, sair do Facebook, cair fora dos grupos de whatssapp, etc. Mas esse mundo digital e hiperconectado é um caminho sem volta. Ele nos envolve de um jeito intenso. Discos de vinis até podem voltar, mas a nossa saudosa vida offline desconectada não volta não, ela está morta e enterrada. E é cada vez mais difícil ler com clareza tudo isso que acontece diante de nossos olhos. Escrever textos como esse me ajudam a pensar sobre esse novo mundo que habitamos. E o meu muito obrigado a você que leu esse meu texto.

Vou fazer uma experiência: nesse próximo final de semana vou me desconectar na sexta feira à noite e me reconectar na segunda-feira logo cedo. Depois conto aqui quais foram as minhas reações emocionais, psíquicas e fisiológicas diante desse meu experimento.

 

Marcos Hiller (marcos@hillerconsulting.com.br) é professor da FIA-USP, FAAP e PUC/PR. Atua como pesquisador na área de cultura digital. É mestre em comunicação, consumo e cultura digital onde fez uma dissertação sobre “modos de apresentação de si no Facebook”. Hiller é também consultor de Branding e sócio da HILLER Consulting, escritório focado em posicionamento de marcas :: Facebook, Twitter, Instagram, Linkedin.

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