Vamos espetacularizar a pobreza?

rodrigo-faro-1Zappiando pela terrível programação dominical de nossa TV brasileira, me deparo com o programa “Hora do Faro” de Rodrigo Faro. Não penso duas vezes e começo a assistir. A cena é dele andando por uma periferia da cidade de São Paulo. O sujeito beija, abraça e afaga crianças pobres no meio da rua. Logo em seguida, ele entra no cortiço de uma mulher que: não possui os dois braços, vive em um cômodo com uns 6 filhos, e vende balas no semáforo. Ela foi a escolhida de um quadro chamado “Hora da Virada”. Ao fundo da matéria, o som de um pianinho tocando uma melodia dramática. É a chamada espetacularização da caridade. Na verdade, inserir aspectos de entretenimento nas mais diversas formas de comunicação é uma tendência contemporânea. Quer fazer com algo sempre melhor absorvido e se torne mais vendável? Basta inserir esse elemento chamado “entretenimento” ou, do inglês, “entertainment”, e certamente as pessoas vão gostar mais. Os norte-americanos são bons nisso.

  • “advertainment”: misturar de advertising (propaganda) com entretenimento, a exemplo do que vemos em diversas propaganda hoje em dia. A propaganda além de tentar vender algo, deve também tentar divertir os consumidores. O filme “Náufrago” mesmo é uma mistura de filme (entretenimento) com ações de “product placement” das marcas Wilson e Fedex.
  • “infotainment”: uma fusão entre informação e entretenimento. Quando o casal Nardoni estava sendo julgado, o iG criou um super infográfico para contar aos seus usuários, de forma divertida, lúdica e espetacularizada, como que o casal jogou a filha pela janela. Até mesmo o que vemos hoje em telejornais com apresentadores divertidos, descolados e cool, vis-à-vis exemplos como Tiago Leifert ou Rodrigo Bocardi no Bom Dia, São Paulo. Informar uma notícia apenas? Claro que não. Tem que ser very fun.
  • “charitainment”: é o que vemos no caso de Rodrigo Faro e tantos outros, ao juntarem charity (caridade) com entretenimento. Oprah Winfrey já fazia isso muito bem feito lá fora, onde presenteava sua plateia inteira com automóveis. Netinho de Paula fazia isso de forma sublime no “Dia de Princesa”. Luciano Huck já faz isso há anos também com o “Lar Doce Lar” ou “Lata Velha”.

Quem escreve muito bem sobre esse entrelaçamento entre consumo e entretenimento é a professora Gisela Castro, que foi minha orientadora no mestrado da ESPM.

Mas o que vemos na Record é um pouco além de uma simples estratégia de “charitainment”, pois Faro tenta capitalizar em cima do povo pobre, almejando pontos de Ibope em função de histórias de vida de gente miserável. Após o intervalo comercial, Faro volta ao palco, usando uma sedosa malha da Lacoste, um lindo Rolex no pulso, abraçando e pulando com a moça sem braços, e dizendo que “é coisa de Deus” o que está acontecendo.

Realmente! Deus tá vendo isso!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *