A Instagramania da tal Qualidade de Vida

Instagramania da tal Qualidade de Vida

Por Marcos Hiller

Viver é tarefa complexa. E se tenho na palma de minhas mãos algo que me entrega a lá carte o que devo comer, como devo comer, como malhar, onde frequentar, o que vestir, onde devo viajar, enfim, como devo viver, é algo que pode nos tornar extremamente essencial e algo que muitas pessoas desejam hoje em dia. Dentro dessa estratégia discursiva, podemos colocar na berlinda uma série de “pessoas-oráculo” que vimos nascer de uns anos pra cá e que pregam as mais desvairadas certezas para milhões e milhões de outras pessoas em sites como TikTok, Instagram, Facebooks da vida e tantos outros. Vemos hoje uma infinidade de pessoas, em sua maioria, viciadas em condicionamento físico, que vivem numa relação simbiótica com seus smartphones e que oferecem a bel-prazer dicas que vão desde receitas light de alimentos, fotografias de situações cotidianas e todas vendendo uma dita espécie da chamada “qualidade de vida”, um termo que se popularizou e que é utilizado excessivamente hoje em dia, mas que, para mim, não diz absolutamente nada, um termo amplo, genérico, vazio. Para algumas pessoas, “qualidade de vida” é levantar todo dia às 4:17hs da madrugada, ingerir um suco verde batido com couve e ir pra academia correr no doze. Pra mim, “qualidade de vida” é sentar com a minha mulher no buteco aqui na esquina de casa e tomar uma HEINEKEN de casco com porção de amendoim. Rá!

O sucesso desses perfis de TikTok e Instagram hoje em dia não só magnetiza obviamente uma legião de seguidores, mas também muitos anunciantes, afinal vemos uma miríade de marcas de roupas, jóias, alimentos funcionais e suplementos que se aproximam dessas web-insta-celebridades com a intenção de que elas sejam patrocinadas, e com isso ofereçam um endosso (muito bem pago) a determinados produtos. Bem-vindo a era da publicização dos rituais da vida! Ao arrastarmos o nosso dedo pelo tela do nosso smartphone, observarmos incontáveis fotos de pessoas que protagonizam uma espécie de reality show fitness, seja da prática do beach tennis (que uma amiga minha outro dia astutamente de #whitepeoplesports) e onde devemos ter a lupa muito bem ajustada para analisar qual estratégia que essas pessoas adotam. Consciente ou inconscientemente, todas essas pessoas têm uma estratégia de apropriação e uso de redes como Instagram Stories, TikTok, coisa e tal. Assim como nós, todos temos uma estratégia de utilização desse aplicativos de rede social, temos nossas disputas simbólicas ali dentro do feed, afinal postamos, fazemos selves, deixamos à mostras coisas que nos favorecem e sagazmente ocultamos coisas que não jogam a nosso favor. Almejamos likes e temos as nossas batalhas ali dentro. São inúmeras.

“A interação social de qualquer indivíduo em nossa sociedade, surge a partir dos propósitos individuais que incluem, entre outros, os interesses de poder, vaidade e riqueza”, disse certa vez Georg Simmel, sociólogo alemão que morreu na década de 1910. E é exatamente o que evidenciamos em boa parte das imagens e videozinhos em timelines de nossas redes sociais online. Muito evidente que, na grande maioria de imagens que vemos, há um fundamental e predominante processo de inscrição em imaginários do consumo que denotam elementos de sofisticação, exclusividade, além de alguns corpos minuciosa e exaustivamente tonificados. Tudo é esteticamente calculado e tratado: os enquadramentos, os ângulos, as matizes de cores, as poses, os filtros, os stickers, os GIFs, as marcas, os rótulos. As fotos em situações clichês também não são economizadas. Nos comentários dessas “web-pessoas” sempre vemos uma legião de fãs, seguidores se inspirando e se espelhando nos seus fãs.

Muito difícil analisar, interpretar e dizer a nossa percepção sobre a lógica desses conteúdos imagéticos, discursivos, visuais e sonoros produzidos por uma multiplicidade de atores-sociais de nossos onipresentes feeds. Mais que isso, ter uma visão crítica de todo esse fenômeno contemporâneo, sair dando pitaco e cair em argumentos simplistas é uma armadilha absolutamente irresistível. Por isso, eu tento sempre me preparar para analisar tudo isso como um rico objeto de pesquisa. Eu constantemente convoco a perspectiva teórica de autores contemporâneos das áreas de comunicação e consumo para me aproximar desses objetos e buscar algum tipo de nitidez, sistematização e uma certa lucidez analítica. Sim, a estratégia web-discursiva dessas moças viciadas em malhação é um objeto de pesquisa tão bom que virou tema de um artigo que publiquei em um congresso do campo da comunicação em 2013. Para lê-lo inteiro, baixe o meu livro “ONdivíduos” que está no meu site MarcosHiller.com.br/ondividuos e procure no índice. É um dos últimos textos chamado “Reality Show Fitness”.

Esse tipo de fenômeno encaixa-se hermeticamente nesse universo do turbo-capitalismo e do hiperconsumo em que estamos inevitavelmente inseridos, e onde há uma infinidade de benefícios, bem-estar material, melhor saúde e mais informação sempre. Tudo é entregue na palma de nossa mão, supostamente de graça e sem necessidade de pagar. Mas esses algoritmos hoje estão sequestrando de uma forma muito cuidadosa tudo que fazemos nas redes. Afinal, como disse certa vez o filósofo francês Gilles Lipovetsky, as atividades mais elementares da vida cotidiana tornam-se problemas para nós e causam interrogações perpétuas.Vivemos numa era onde o agora é a hora da desorganização das condutas, da cacofonia das referências e critérios. No manancial de fotos e textos que algumas pessoas publicam em suas indefectíveis timelines de Instagram, evidencia-se nas entrelinhas um discurso norteado pela espetacularização das práticas cotidianas mais elementares, onde se colhe frutos da eficácia tecnológica da medicina e de uma condição sócio-econômica geralmente bem sucedida. Essas web-celebridades surgem para milhares de seguidoras em um mundo que promete satisfações incontestáveis e sempre atualizadas. Mais que isso, o discurso dessas pessoas viciadas em condicionamento físico por exemplo encaixa-se muito bem em um mundo tão depressivo, cheio de ansiedades, gerador de inquietações de toda natureza e, pela primeira vez, menos otimista quanto à qualidade de vida por vir, disse também o filósofo francês Gilles Lipovetsky em um dos seus últimos excelentes livros, “A Cultura Mundo”, que escreveu em conjunto com Jean Serroy, em 2010. As formas desse neoindividualismo centrado na primazia de si são incontestáveis. Paralelamente à autonomia subjetiva, ao hedonismo, desenvolve-se uma nova relação com o corpo: obsessão com a saúde, culto do esporte, boa forma, magreza, cuidados com a beleza, busca por likes, cirurgia estética, crítica-fobia, manifestações de uma cultura tendencialmente narcísica. Pra mim, são sintomas de um mal estar de nossa sociedade contemporânea. O cultrua do “nunca está bom”. Essa lógica neoliberal do ranking, da competição, da busca constante por algo que nem sabem o que é.

Ao passar meus olhos em busca de respostas sobre as lógicas desses circuitos da comunicação, chego em autores que pensam o consumo, e onde vamos encontrando algumas pistas que explicam como se alicerça a estratégia de apropriação de um site de rede social pelos seus usuários. Trata-se, fundamentalmente, de uma manifestação do consumo contemporâneo, ou seja, um fenômeno da ordem da cultura, um construtor de identidades, uma bússola das relações sociais e como sistema de classificação de semelhanças e diferenças na vida contemporânea, como nos ensinou certa vez o antropólogo Everardo Rocha, um dos mais prestigiados pensadores do consumo hoje no Brasil. O professor da PUC Rio também nos ensina que o consumo assume lugar primordial como estruturador dos valores e práticas que regulam relações sociais, que constroem identidades e definem mapas culturais. Qualquer um de nós, publicamos em redes sociais apenas as informações que apresentam uma imagem desejada nossa. Enquanto estamos supostamente nos mostrando, estamos apresentando uma versão muito seletiva de nós mesmos e oferecendo nossas intimidades e subjetividades para Mark Zuckerberg e cia, que revende pras marcas em formato de dados e ads.

Camarotização da vida, culto ao corpo, vaidade online, exibicionismo digital, vida vazia, falta do que fazer, ócio criativo, defina como quiser. É tudo uma questão de entendermos não a tecnologia, mas sim entender as pessoas. Devemos enxergar toda essas insta-estratégias como um fenômeno do consumo, ou seja, uma expressão de status e capaz de construir uma estrutura de diferenças. Séries de produtos e serviços se articulam, pelo consumo, a séries de pessoas, grupos sociais, estilos de vida, gostos, perspectivas e desejos que nos envolvem a todos num permanente sistema de comunicação de poder e prestígio na vida social.

Espero que esse meu artigo tenha lhe feito pensar. Não em busca de respostas, mas de inéditas indagações. Vou ali fazer meu shake de whey protein e ir pra academia! Meta do dia: 3849 abdominais pra poder tomar minha Heineken com menos culpa.

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